quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Citizenfour: como produzir um documentário sobre Edward Snowden sem cair no sistema da NSA?


As revelações de Edward Snowden sobre a espionagem da NSA envolveu o mundo inteiro. Líderes de países, empresas, comunidades, e até cidadãos comuns. Mensagens sobre terrorismo e romances online. Tudo foi cuidadosamente vigiado.

O documentário Citizenfour dirigido por Laura Poitras mostra como Snowden fez as revelações e os oito dias os quais ele passou em um hotel de Hong Kong enquanto disseminava os documentos. Obviamente a disseminação precisou ser feita cuidadosamente, tomando todas as precauções possíveis pela questão da espionagem, e o mesmo precisou ser feito com o documentário.




O site americano The Verge entrevistou Laura Poitras para descobrir os métodos que a equipe de produção do documentário usou para evitar que qualquer dado sobre Snowden vazasse para a NSA ou o governo norte-americano. Segue aqui a entrevista traduzida:


HDs criptografados

"Todos os nossos arquivos estavam criptografados nos HDs, então era preciso logar com senhas para acessá-los, e se a sala de edição fosse invadida, eles não teriam acesso aos vídeos. Isso significa muitos HDs criptografados, mas assim que você liga o computor e coloca a senha, não é muito diferente do que você está acostumado. Apenas leva mais tempo e você precisa de alguém dedicado a isso. E tecnicamente, leva um tempo para fazer a criptografia, mas uma vez feita, tudo funciona como um HD normal.

Quando estávamos terminando, tínhamos muitas pessoas mexendo com o áudio e fomos bastante cautelosos sobre transferir isso via cabo. Nós simplesmente deixamos de lado. Todos usaram comunicação criptografada por PGP, ou seja, nós realmente treinamos muita gente sobre como usar criptografia. Nós tinhamos que compartilhar cenas, então criamos alguns protocolos, senhas compartilhadas que foram decididas em New York, e usávamos estas senhas para mover os arquivos criptografados. Tudo fica mais complexo, mas as consequências negativas poderiam ser tão ruins que nós simplesmente precisávamos de toda essa segurança."


Diferentes níveis de segurança significa usar diferentes computadores

"Eu definitivamente usei diferentes computadores para diferentes tarefas. Tinha um computador rodando Tails que era algo como... um monte de coisa foi tirada dele, simplesmente arrancamos. Microfones e tudo mais. E tinha um que eu usava internet. E claro, eu usava programas como o Tor para navegar na internet. Mas eu já fazia isso muito antes de Snowden.

Quando voltei de Hong Kong depois de encontrar com Snowden, eu voltei para Berlin e simplesmente parei de usar celular. Eu decidi que era bom eu me livrar dele por uma série de razões. Um celular é um microfone e um dispositivo de rastreamento, e eu pensei... eu não vou transmitir isso. Então eu parei de usar um celular enquanto editava, mas agora que voltei para fazer a distribuição do documentário, eu preciso falar falar com muita gente, então eu voltei a usar um celular.

Uma vez que você fica ciente dos riscos, as escolhas são bem simples. É apenas precaução, e em qualquer contexto você precisa ser cauteloso. Pense 'oh, isso é perigoso. Seu celular é perigoso nessa situação.' Isso vira meio intuitivo. Se estivéssemos falando sobre algo confidencial, eu apens diria para tirarmos os computadores da sala. Isso se torna a coisa mais óbvia a se fazer por precaução.


Não deixe de aprimorar quando for necessário

"Quando os primeiros emails de Snowden chegara, ele perguntou a minha chave e eu a dei, e então ele perguntou coisas sobre meu computador, para ter certeza que estava seguro. Então eu obtive algumas informações e assim que isso aconteceu eu pensei, ok, eu preciso estar em outro sistema. Estava claro que eu queria me livrar do que estava associado a mim pelo meu nome verdadeiro. Eu tinha outro computador barato que eu comprei com dinheiro vivo e passei a usar Tails para me comunicar, além de vários emails anônimos que eu trocava de tempos em tempos. E foi basicamente usando Tails com PGP, nada de chats em tempo real nesse ponto. Depois de Hong Kong, começamos a usar chat por OTR. É uma combinação de fatores.

Quando Snowden assistiu ao filme, ele tinha várias observações operacionais. Tinha um pouco de criptografia por cyphertext no filme e ele queria saber se eu tinha usado novas chaves - e eu realmente tinha. Se ele estava digitando uma senha em alguma tela, nós mudávamos o áudio para que ninguém pudesse decifrar o que ele estava digitando. E ele tinha várias observações sobre hardware também: 'Você sabia que você pode ver aquele USB plugado no player?'"

About the Author

Arthur De Lio

Author & Editor

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