segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A tragédia de Santa Maria, o descaso da imprensa e a omissão do povo brasileiro

O desastroso incêndio em uma boate, na cidade de Santa Maria/RS, comoveu e mobilizou o país nas últimas horas. Nada mais óbvio, afinal, foram mais de 200 mortos, a grande maioria jovens universitários.

O povo brasileiro quer culpados, mas não quer parar para pensar em quem pode ser culpado. O povo brasileiro espera a imprensa decidir quem é o "verdadeiro culpado".

Quatro possíveis culpados já foram presos provisoriamente: dois proprietários, o vocalista da banda e o montador de palco.

Duas versões da história foram contadas. A primeira é de que a banda teria usado um sinalizador para realizar um show pirotécnico, o que iniciou o incêndio. A segunda é a de que teria havido um curto-circuito em um dos equipamentos da boate, iniciando o incêndio algumas músicas após o uso do sinalizador, o que inocenta a banda.

Em ambos os casos, os donos da casa poderiam não ser responsabilizados pelas mortes. No primeiro, a culpa seria da banda. No segundo, uma fatalidade improvável.

Entretanto, independente do motivo que iniciou o incêndio, a boate precisava de extintores que funcionassem e saídas de emergência com um bom plano de evacuação. Em parte, a falta desses itens é culpa dos proprietários, contudo, a boate permanecer aberta mesmo sem cumprir esses requisitos é culpa da fiscalização do governo municipal, e do Corpo de Bombeiros.

De acordo com o próprio Corpo de Bombeiros, o alvará da boate estava vencido desde agosto do ano passado. Oras, se o alvará estava vencido, significa que um dia teve o alvará. Então o Corpo de Bombeiros autorizou aquela baderna... foi só uma questão de datas, certo? É como alguém bater no seu carro e você levar a culpa por estar com o licenciamento atrasado. O licenciamento em dia não evitaria a batida.

As informações são desencontradas. Enquanto a planta do local mostra apenas uma saída, alguns sobreviventes relataram ter sobrevivido apenas porque conseguiram sair pela saída da área VIP, ao invés da principal, como é o caso de Ezequiel Corte Real, que descreveu a situação:

"(...) Quando vi que não tinha mais jeito de sair pela saída principal dei a volta na área vip e sai pela lateral (...)"

Hoje, apesar da internet ser ótima para difundir as notícias, também é perfeita para confundir. Todos estão traumatizados e indignados com a tragédia, mas deve-se prestar atenção para chegar em todos os culpados, e não deixarmos este acontecimento passar batido, deixando a brecha aberta para todos os outros comércios abertos no Brasil, que hoje funcionam irregularmente.

Não adianta seguir as normas de segurança depois que o prédio desabou. Não adianta seguir as normas de segurança depois que a boate queimou. São normas de segurança que mantém as coisas de pé, e um amigo meu falou muito bem sobre isso:


"Uma das coisa que aprendi na Engenharia, é que quando uma merda acontece, ela foi o resultado final de uma sucessão de outras merdinhas, existem estudos amplamente divulgados (procurem por Pirâmide de Bird) que geraram boas práticas de segurança que podem ser adotadas em qualquer lugar, até em casa. Só acontece uma tragédia porque foram omissos com todo o percurso, todo o desenvolvimento, ignoraram todos os sinais de que um dia daria merda. Acredito fortemente que no histórico da casa tenha algo relevante. Mas o jeitinho brasileiro vem e fode tudo. É triste ver 200 pessoas morrendo por um problema crônico, e pensar que já poderia ter acontecido antes, ou ser sanado antes. O problema é o 'ah, ninguém ia imaginar'. Tem que imaginar. Principalmente o dono do estabelecimento."


Deve-se cobrar uma resposta preventiva. É dever da população. E se o proprietário não proporciona esta prevenção, deve-se cobrar do governo municipal. No final, o verdadeiro culpado é o governo municipal, que normalmente é omisso ou corrupto, liberando estes alvarás, ou não fechando estabelecimentos que não possuem alvará. E eles sabem disso. Quando os prédios caíram ano passado no Rio de Janeiro, rapidamente afirmaram que fiscalizariam todos os prédios. Agora, após o incêndio na boate Kiss e mais de 200 mortos, os prefeitos estão determinando que fiscalizem as casas noturnas em suas cidades, jogando na nossa cara o quanto a fiscalização é precária e omissa.

Obviamente que depois deste incêndio, qualquer outro incêndio que acontecer ganhará grande destaque na mídia, e prefeito nenhum quer isto no seu mandato. Ou você realmente acha que ele está preocupado com as pessoas que podem vir a morrer caso outra desgraça aconteça? Abram seus olhos.

Como se não bastasse a tragédia em si, a imprensa brasileira tem se tornado cada vez mais sensacionalista, se aproximando mais aos tablóides sem muito compromisso com a verdade, do que de jornais realmente sérios. São cenas como esta, do Estadão, que me fazem morrer de vergonha da nossa imprensa:



Para a única finalidade da reportagem que o Estadão pensou em publicar: sensacionalizar. Não interessa se os falecidos eram namorados, qual faculdade cursavam, ou pra que time torciam. Não interessa conhecer as vítimas uma a uma, como propõe o G1, numa página em que mais parece apresentação dos participantes do BBB.

O que deveria interessar para a imprensa, numa tragédia como esta, é publicar a relação dos nomes das vítimas, apenas para informar as famílias, parentes e amigos. E alertar o povo dos problemas que realmente aconteceram, para o povo se mobilizar.

Vamos acabar com essa mania do "jeitinho brasileiro", de aceitar a corrupção como algo normal. Os políticos de sempre estão cada vez mais caras-de-pau, inventando fatos e se contradizendo, como é o exemplo de hoje.

Esta é mais uma tragédia que me deixa triste. Triste não só pelos que já morreram pelo descaso de um proprietário, de um governo, e de um povo. Triste também por todas as outras centenas de pessoas que ainda virão a morrer pelos mesmos motivos. Errar é humano, mas porque temos que cometer sempre os mesmos erros? Abra os olhos, povo brasileiro. Abra seus olhos e vigie as pessoas em que votaram. Vigiem pelo menos um dos políticos em que votaram. Vamos juntos evitar que a ganância e a corrupção matem todos os nossos filhos.

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ATUALIZADO EM 4 DE FEVEREIRO DE 2013

Saiu a notícia ontem sobre o depoimento de um dos donos da boate Kiss, onde ele afirma, entre muita coisas que contradizem todas as investigações, que "não sabe o que dizer aos pais das vítimas". Entretanto, o mais surpreendente é este trecho aqui:

""Quando eu entrei de sócio na boate, a boate já estava em funcionamento com alvará de bombeiro, tudo. Eu só renovava. Um ano eu renovei, os bombeiros estiveram lá e detectaram que as minhas portas, que eram já dessas de incêndio, que bate e abre, estavam ultrapassadas. Foi o que eles me disseram. E me indicaram uma empresa chamada Hidramix, que era de um antigo colega deles, que fazia todo esse sistema operacional pra mim" disse Elissandro. Procurada pela RBS TV, a direção da empresa Hidramix não retornou os recados deixados no celular. O Corpo de Bombeiros diz que só vai se manifestar depois de concluído o inquérito."


O alvará era renovado constantemente, e desta vez só estava atrasado. O que significa que realmente era uma questão de datas apenas, colocando os oficiais que cederam o alvará na berlinda. Quanto mais a fundo se entrar nas investigações, mais e mais culpados serão achados. Cada um com sua parcela de culpa que contribuiu para a desastrosa tragédia.

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Arthur De Lio

Author & Editor

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