sexta-feira, 31 de agosto de 2012

José Mujica - Parte 2: O passo mais ousado contra o tráfico

Com a última postagem, ficou muito claro que José Mujica é um homem ousado. Mas ele está prestes a ser o primeiro presidente na América a dar o que talvez seja o passo mais ousado de todos: a legalização da maconha.

Quando se fala em legalização da maconha, a primeira coisa que todos devem lembrar é do exemplo holandês, onde em algumas áreas específicas, em estabelecimentos específicos, é possível consumir a droga legalmente. Entretanto, a intenção de Mujica vai muito além disso. O presidente uruguaio propõe uma estatização completa da maconha — terceirizada à uma empresa privada  muito bem controlada e fiscalizada, tal qual é feito com as empresas de bebidas alcoólicas hoje.

Mujica explica que muitos dos traficantes que vendem maconha hoje, logo passam a induzir estes usuários para drogas mais pesadas, como cocaína, o que aumenta a dependência dessas pessoas, e consequentemente a violência destes usuários, que logo vão atrás de mais dinheiro, para conseguir mais droga. A idéia é simples, retirar o mercado de drogas leves das mãos dos traficantes, para diminuir o acesso destes usuários às drogas pesadas.

Ao mesmo tempo em que corta-se esta ligação marginal das drogas leves às drogas pesadas, corta-se também todo o lucro obtido pelos cartéis que derive da maconha, o que no caso do Uruguai chega a 40 milhões de dólares por ano, enfraquecendo estes cartéis e tornando-os um alvo muito mais fácil, diminuindo a violência gerada por eles.

Como não é uma proposta feita por crianças com visão unilateral dos acontecimentos, obviamente que outros possíveis problemas foram expostos, como o medo do Uruguai tornar-se um destino turístico para consumo de drogas, e já propostas soluções para cada um deles.

Os uruguaios terão que se registrar, e terão uma quantidade pré-definida que poderão comprar. Estrangeiros não estarão permitidos a comprar a droga, e os cigarros terão controle químico e digital, sendo possível identificar cada detalhe da fabricação até à quem foi vendido. Ou seja, caso um estrangeiro seja pego usando a droga, será possível rastrear facilmente quem a comprou e revendeu. Lógico que será impossível pegar todos os estrangeiros que usarem a droga, mas o cerco será grande, dificultando muito para os que não querem se arriscar.

Existe também o risco do consumo aumentar? Sim, é bem plausível e esperado que, num primeiro momento, o consumo entre os próprios uruguaios aumente, mas Mujica tem suas respostas na ponta da língua:

"Quando os Estados Unidos retiraram a proibição de álcool em 1930, as pessoas beberam um pouco mais que o normal no começo, mas o fato é que a vida continuou nos Estados Unidos, e hoje até que é uma nação bem próspera, não?"


Eu, particularmente, sempre fui  e ainda sou  contra a legalização da maconha. Mas uma coisa é certa: a guerra contra o tráfico não obteve grandes resultados, vide toda a violência e dinheiro que os cartéis geram. Desde a militarização das FARC ou dos traficantes no Rio de Janeiro, alguns exemplos óbvios para nós, mas que são problemas os quais afetam toda a América. E nos últimos anos, tem havido um grande debate sobre a legalização como arma contra os cartéis, defendido por muitos pensadores e personalidades, tais como Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton, no documentário Quebrando o Tabu. 




Só os 40 milhões de dólares arrecadados pelo governo sendo revertidos diretamente para programas de reabilitação (que existirão com ou sem a legalização da droga) já terá valido o esforço. Com o enfraquecimento dos cartéis, e a possibilidade de diminuição na violência urbana, legalizar a maconha até que talvez possa ser uma boa idéia. Tentar novos métodos de  combate à violência é melhor do que fechar os olhos à política fracassada atual.

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Arthur De Lio

Author & Editor

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