quarta-feira, 29 de agosto de 2012

José Mujica - Parte 1: Às forças que governam o homem

"Não viemos ao planeta para nos desenvolvermos, em termos gerais. Nós viemos ao planeta para sermos felizes. Porque a vida é curta, e rapidamente se vai. E nenhum bem vale mais do que a vida, e isto é claro. Mas a vida vai se passando, e nós trabalhando, trabalhando, para consumir sempre mais, e a sociedade de consumo é o motor, porque, se o consumo está paralisado, a economia pára, e se você parar a economia, o fantasma da estagnação econômica aparece para cada um de nós."




É neste tom que o presidente do Uruguai, José Mujica, discorre seu impressionante e pressionante discurso na Rio +20.


Mujica é um presidente de esquerda singular, e um dos poucos que levam a sério suas próprias ideologias. Com um patrimônio avaliado em cerca de mil dólares, seu Fusca azul de 1987, o qual também é seu veículo oficial, o presidente abdica de praticamente 90% do seu salário, doando-o à pequenas empresas e ONGs que trabalham com habitações populares. Os 1200 dólares restantes podem parecer pouco para quem está acostumado com presidentes perdulários, mas Mujica tem a explicação na ponta da língua:

"Este dinheiro me basta, e tem que bastar porque há outros uruguaios que vivem com menos."

Não só uruguaios, mas grande parte da América Latina, a qual é uma das regiões mais pobres e desiguais do mundo, e que nos últimos anos foi recheada por líderes de esquerda, vive com muito menos que 1200 dólares. Todos estes presidentes esquerdistas foram eleitos por uma ânsia popular de melhoria na qualidade de vida e diminuição na desigualdade e, apesar de uma melhora aparente, José Mujica é o único que parece seguir realmente firme em seu discurso esquerdista de lutar pelo povo.



O presidente José Mujica em seu único patrimônio.

Que tal abrir aqui um pequeno parêntese para comparar o patrimônio de Mujica com o patrimônio do símbolo máximo, hoje, da esquerda no Brasil, o ex-presidente Lula? Em 2002, Lula declarou possuir um patrimônio de "apenas" R$422.949,32, valor excepcionalmente alto para a maioria dos brasileiros. Já em 2006, o ex-presidente dobrou seu patrimônio de acordo com sua declaração, que foi de R$839.033,52. E é aqui que deixo uma pergunta para refletir:

Por que raios acreditar que alguém que vive no extremo confortável da desigualdade de renda, mudará essa situação, sem deixar seu estilo perdulário de vida de lado?

O mínimo que deveria ser esperado, é que Lula tivesse abdicado do seu salário de R$8.885,48 quando foi eleito presidente. Isto significaria uma economia de R$853.000 para os cofres públicos, que poderiam muito bem ajudar na construção de habitações populares, e tirar muitos nordestinos de um dia de fome, e ainda sobrariam os R$4.294 mensais, praticamente o dobro do que José Mujica aceita receber como salário.

É lógico que se formos comparar por dados oficiais, o índice de Gini teve uma melhora consideravelmente grande. O índice é medido de 0 a 1, onde 0 é o país sem desigualdade nenhuma, e 1 é o ápice da desigualdade.

Em 1995, início do governo Fernando Henrique Cardoso, considerado um governo de direita, privatizador e totalmente a favor das classes sociais mais altas, o índice de Gini batia em 0,60 e beirou essa margem até 2002, onde teve queda para 0,58. De 2003 até 2009, período do governo Lula, o índice passou de 0,58 para 0,54, uma diminuição duas vezes maior do que o alcançado pelo FHC. Então podemos dizer que, oficialmente, a desigualdade no Brasil diminuiu. Infelizmente, os números oficiais nem sempre refletem a realidade...

Considerando que o PIB brasileiro de 2011 foi de R$4,143 trilhões, e o gasto público com juros de dívidas do governo foi de R$235,6 bilhões, então podemos concluir que o país gastou 5,7% do seu PIB, apenas com pessoas que já possuem um grande patrimônio. No mesmo ano, o dinheiro direcionado para o bolsa família foi de R$16,699 bilhões, o que equivale a míseros 0,4% do nosso PIB. Ou seja, a cada R$100,00 que vai pro bolso de um banqueiro rico, R$7,00 são direcionados para tentar diminuir a desigualdade. Parece que estão diminuindo a desigualdade?

Eis que repito a minha pergunta:

Por que raios acreditar que alguém que vive no extremo confortável da desigualdade de renda, mudará essa situação, sem deixar seu estilo perdulário de vida de lado?

A desigualdade é algo muito mais profundo que o índice de Gini, como foi deixado claro aqui. Entretanto, se o governo usa do índice de Gini para se vangloriar de de feitos superficiais, repito, que o mínimo esperado era que o presidente — e hoje, a presidenta — abdicasse de parte do seu salário. Infelizmente, e principalmente no Brasil, isso é um fato que dificilmente veremos acontecer por um motivo simples, o qual Mujica comenta neste seu discurso:

"É possível falar de solidariedade e que "estamos todos juntos", em uma economia baseada na concorrência impiedosa? Até onde chega nossa fraternidade?"

E Mujica continua:

"O homem não governa hoje. Não há forças envolvidas, senão as forças que governam o homem."

O homem é governado pelo Mercado. Governado pelo lucro e pela exploração. Há tempos nós perdemos o controle dos países. Muitas das grandes empresas possuem faturamento maior que o PIB de vários países. É tudo baseado em lucro e exploração. Os ricos tentando impor o trabalho escravo, enquanto os pobres lutam para trabalhar menos e ter alguns direitos. Lutam para ter o direito de não ter que passar a vida trabalhando, mas vivendo. E José Mujica é o líder esquerdista que vem batendo de frente ao controle do Mercado, protocolos, e de muitos outros tabus.

Muitas são as histórias de José Mujica. A residência presidencial do Uruguai já serviu de abrigo para moradores de rua, até conseguirem uma vaga em abrigos oficiais do governo. O Palácio Suarez y Reyes, onde acontecem as reuniões do governo, também foi disponibilizado por Mujica para servir de abrigo aos sem-teto. Ano passado, resolveu vender a residência de veraneio do governo, e o dinheiro foi completamente convertido para construções de abrigos populares.

Um homem nadando contra a corrente. Um esquerdista que é contra o socialismo típico. Uma fagulha de esperança para que haja mudanças no pensamento político. O primeiro presidente a querer dar o grande passo que será tema da próxima postagem: A legalização da maconha para acabar com o tráfico.




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Arthur De Lio

Author & Editor

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